terça-feira, 30 de novembro de 2010

As vezes...

As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.
Fernando Pessoa

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Se houvesse degraus na terra...


Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

                     Herberto Helder

domingo, 21 de novembro de 2010

Pela rua já serena...


Pela rua já serena 
Vai a noite 
Não sei de que tenho pena, 
Nem se é pena isto que tenho... 
Pobres dos que vão sentindo 
Sem saber do coração! 
Ao longe, cantando e rindo, 
Um grupo vai sem razão... 

E a noite e aquela alegria 
E o que medito a sonhar 
Formam uma alma vazia 
Que paira na orla do ar... 


Fernando Pessoa

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Cidade

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

E de novo,Lisboa...


E de novo, Lisboa, te remancho,
numa deriva de quem tudo olha
de viés: esvaído, o boi no gancho,
ou o outro vermelho que te molha.

Sangue na serradura ou na calçada,
que mais faz se é de homem ou de boi?
O sangue é sempre uma papoila errada,
cerceado do coração que foi.

Groselha, na esplanada, bebe a velha,
e um cartaz, da parede, nos convida
a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:
dizem que o sangue é vida; mas que vida?

Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,
na terra onde nasceste e eu nasci?

Alexandre O'Neill, in 'De Ombro na Ombreira'




domingo, 14 de novembro de 2010

Quero voar.


Quero voar
-mas saem da lama
garras de chão
que me prendem os tornozelos.

Quero morrer
-mas descem das nuvens
braços de angústia
que me seguram pelos cabelos.

E assim suspenso
no clamor da tempestade
como um saco de problemas
-tapo os olhos com as lágrimas
para não ver as algemas...

(Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade.)

José Gomes Ferreira

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Poética.

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

Vinicius de Moraes

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Morreu o Sr. do Adeus


Morreu o Sr. do Adeus.Lisboa ficou mais triste.
Muita vezes lhe disse Adeus e recebi um Adeus que como diz este poema era muito mais um olá, caloroso.
Gostava de o ter fotografado, quantas vezes pensei nisso mas fui sempre adiando.
Agora é tarde.
Adeus Sr. do Adeus.

PS. deixo aqui também o testemunho de Fernando Alves nos seus fantásticos "sinais" da TSF. E aqui as palavras de alguém que nos emociona com a sua escrita.

Video-Marco Rodrigues com Carlos do Carmo." o homem do Saldanha"

Castanhas!

CARLOS DO CARMO HOMEM DAS CASTANHAS

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Aminatu Haidar


Tem uma figura frágil e um sorriso triste.Fala de uma forma emocionada,serena e impressionante do sofrimento do seu povo,que agora mesmo, neste momento, está a sofrer as maiores atrocidades em Al Ayun, Sahara Ocidental,território ocupado e roubado a um povo por Marrocos.Tão perto daqui. Dezenas de Compatriotas mortos, centenas de feridos e desaparecidos. Fala de bebés e crianças de colo,cujos pais foram presos e os filhos deixados abandonados, para  morrerem.Fala de tendas incendiadas, com crianças e idosos dentro.Fala dos seus filhos,em perigo,fala do seu povo,o mais importante de tudo.Fala de um muro,de 2700Km de comprimento,  que separa o seu povo, condenando parte dele ao deserto e outra parte á repressão.Não aconteceu, está acontecer,ontem,hoje,agora.Um massacre contra um acampamento pacifico de protesto com cerca de 25 mil pessoas que apenas querem a sua dignidade e a sua terra de volta.De mulheres,homens,crianças e idosos que se recusam a ser escravos no seu próprio País.Que estão fartos de esperar, pacificamente, por decisões da ONU nunca cumpridas.Que estão fartos de ser injustiçados,humilhados, torturados,reprimidos e roubados.De ser enganados.Fala da Prisão negra, medonha, onde esteve encarcerada durante anos.Fala da indiferença da União Europeia,que protege e assina acordos com Marrocos e a quem apenas interessam os direitos humanos se não houverem interesses económicos em jogo.Uma UE que compra coisas roubadas a outros sabendo perfeitamente o que está a fazer.Fala da hipocrisia de politicos e de politicas.Fala de Portugal, de como se ergueu por Timor, problema em tudo idêntico a este. Mas o que mais impressiona é que fala sem rancor,sem ódio por quem tanto os oprime,tanto os despreza.Fala com esperança ,apesar de sentirmos que perdeu tanto,sobretudo que o seu povo perdeu tanto.Por trás da sua aparência frágil e do seu sorriso triste esta mulher tem uma força e uma coragem gigantesca. Faz lembrar Gandhi, já o li tantas vezes.Hoje percebi porquê.

(El Ayun está vedada por completo a Jornalistas de todo o mundo. Nenhum jornalista pode entrar na cidade, não há imagens que não sejam as que algumas pessoas conseguem enviar. A união Europeia pactua com isto e nem sequer defende os seus jornalistas e os seus cidadãos. Ninguém sabe a verdadeira dimensão da tragédia.E ao que parece ninguém quer saber.)

Liberdade. (Dedicado a Aminatu Haidar, de visita a Lisboa nestes dias)


"O destino dos homens é a liberdade."
 (Vinícius de Moraes)

(Este post é dedicado a uma Mulher, Aminatu Haidar,Saharaui, que luta pela libertação do seu povo, pelo seu regresso a casa e que nestes dias visita Lisboa).

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Retratos de Lisboa XII

Calçada Portuguesa.


imagino-me sentada num dos bancos da Avenida
talvez apenas olhando
talvez apenas observando
atentamente
quem por mim passa sem me olhar
pisando pedras de história
afastando com a biqueira dos sapatos
as folhas que vestem o chão
de Outono

Tempos...





Não são as tuas folhas caídas que me comovem,
Nem o chão atapetado de natureza morta.
Não me comove sentir harmonia no chão desarrumado pelo vento,
Nem as cores maravilhosas das tuas folhas, ainda que presas por um fio num galho frágil.
Excessivamente afogueado...
És Outono.
És caduco.
És perene e abusivo.
Despes a vida e tornas-te quase inconvenientemente sublime.
Sublime e contraditório.
Trazes na morte a renovação.
Mas hoje, tu não me comoves, porque tu és de acordo com a época.
Assim deve ser a tua natureza.


O que me comove hoje é o teu banco de jardim.
Comove-me o teu banco pintado de verde à espera de gente sem esperança.

Sem cor.
Sem rumo.
Gente quase perdida num Outono de desespero.

Comovem-me os tempos que se auguram difíceis.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A água...



A água chia no púcaro que elevo à boca. 

«É um som fresco» diz-me quem me dá a bebê-la. 
Sorrio. O som é só um som de chiar. 
Bebo a água sem ouvir nada com a minha garganta.
Alberto Caeiro

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O azul dos teus olhos


Hoje decidi que iria ser feliz.
 Apenas olhar o azul do céu sem me lembrar do azul dos teus olhos.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Nesta curva tão terna...


Nesta curva tão terna e lancinante

que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O'Neill

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Árvore, cujo pomo, belo e brando

 

Árvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgíneas faces imitando;

nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúria sinta;
nem por malícia de ar te seja extinta
a cor, que está teu fruito debuxando.

Que pois me emprestas doce e idóneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,

se não te celebrar como mereces,
cantando-te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória.

Luís Vaz de Camões

Cada árvore é um ser para ser em nós


Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-a
a árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses

António Ramos Rosa