sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Tejo (Feliz Ano Novo).

Debruçada sobre o rio,Lisboa.


Lisboa tem muitas casas, muitos prédios antigos, muitas fachadas de azulejos, muitos estendais de roupa aparafusados às paredes exteriores. Lisboa tem camisas a baloiçar ao vento de Inverno nesses estendais e tem homens e mulheres que assomam às janelas. Para ver quem passa. Para fumar um cigarro sem poluir o ambiente da casa onde vivem. Para saberem se hão-de sair de gabardine ou de sobretudo. Lisboa também tem homens que usam chapéu, uns à antiga, outros completamente fashion addicts. Lisboa tem sras que saem para ir à mercearia com a carteira das moedas na mão direita e o saco de rodinhas na esquerda. E sras que saem atarefadas, aprumadas e equilibradas em cima dos saltos altos, a caminho de carros modernos e rápidos que as levam a empregos diariamente absorventes. Lisboa tem gente, muita gente. Os que nela residem, os que nela trabalham, os que nela passeiam e namoram, e pedem esmola.
Mas Lisboa tem um tesouro que faz dela a cidade especial, mágica e romântica que é. Tem o rio que a enfeita, que a perfuma, que a ilumina. O rio da ponte sobre o Tejo, o rio que une margens de pessoas diferentes, o rio que deu origem aos cacilheiros e à música da saudade, o rio de onde partiram os que em tempos foram mais corajosos do que todos os outros, o rio que no Bugio se une ao mar. E a cidade ama o seu rio. Deleita-se a mirá-lo. Enfeita-se de locais para [o] poder namorar
Os miradouros
Vera Lima-Vekiki projects

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

As raparigas lá de casa.

Como eu amei as raparigas lá de casa

discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silencio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar

(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-se
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa.


Emanuel Félix, poeta açoreano
(poema extraído do livro «Habitação das Chuvas» e sugerido pelo meu amigo HM)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Portugal.


Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Alexandre o´Neill

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal (Feliz).


Era quase meia-noite e o homem estava ainda sentado ao balcão, a beber brande. As mesas estavam vazias e cada vez entrava menos gente. Demoravam-se apenas quanto bastasse para comprarem bolos, vinhos e caixas de cho colates, vistosas nas suas bonitas embalagens. Era dia de festa.No entanto, no pouco tempo que os clientes por lá per maneciam, o homem que estava a beber brande ao balcão, ao vê-los e ao ouvi-los sentia a presença de um calor hu mano e, por instantes, era como se também fosse sair dali com eles para uma festa.Agora espaçava-se mais a entrada dos compradores de alegrias. De bolos-rei já não restava nem um. Até que entrou aquela mulher ainda nova e comprou duas sandes, com o ar desatento de quem não repara em nada do que se passa à sua volta.O homem que bebia brande ao balcão pressentiu na quela mulher uma companhia para os que, como ele, não tinham festa onde ir nessa noite. Ainda pensou oferecer-lhe uma das coloridas caixas de chocolates que ornavam a montra. Mas quanto custa uma caixa de chocolates, quan to custa, sem alegria, em bolos e vinhos, uma festa?Viu-a sair com o mesmo ar desamparado com que en trara. Afinal, uma festa, pensou o homem, é apenas uma marca num dos dias do calendário, e nem sempre essa mar ca vale para todos.Agora, o café estava vazio. Os empregados bocejavam, desejosos de se irem embora, e olhavam para o homem que bebia brande ao balcão com uma atitude de vincada cen sura, como se ele tivesse culpa de ainda continuarem ali.O homem sentiu que era completa a solidão que o cer cava. Pagou e saiu.A cidade pareceu-lhe subitamente deserta. Sozinho no mundo, pensou o homem. O frio trespassou-o. Sem saber para onde ir, meteu as mãos nos bolsos, curvou-se um pou co contra o vento. E desapareceu no escuro, lá ao fundo da rua.
Manuel da Fonseca

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Natal...


O Natal tinha aura naquele tempo.
Um tempo longínquo, muito lá atrás no tempo, tão atrás que até parece impossível que tenha existido.
Afinal de contas os anos passam e as recordações têm tendência a ser empolgadas, como se tudo o que aconteceu fosse muitas vezes melhor do que aquilo que acontece.
Os cheiros são a memória mais forte desses dias. A lufa lufa diferente da de agora.
A importância da ida "à praça" comprar a abóbora para os sonhos.
A antecedência com que se comprava o bacalhau, retirando do exposto pequenas lascas salgadas para confirmar a cura, dando instruções ao senhor da guilhotina quanto ao corte das postas, os rabos que ninguém gostava.
A importância da compra do perú. De um tamanho considerável, mas sem esquecer a capacidade do forno. O tempero. Deixar de molho em água com limão e laranja para que a carne ficasse macia e saborosa. Fazer uma mistura de vinhos e licores para ir regando a assadura. O cheiro a espalhar-se por toda a casa, o verdadeiro cheiro do Natal.
Em casa da Avó os cheiros eram os dos fritos. Das mãos dela e completamente a olho, sem receita escrita, saíam os sonhos de abóbora, os coscorões e as fatias douradas.
Eram dias de muito trabalho que aos meus olhos eram dias mágicos. Agora que sei dar o valor ao trabalho que o Natal significa para quem o organiza, sei que eram dias estafantes apesar de em número de comensais não sermos muitos.
E afinal, o Natal dura apenas dois dias por ano. Dois dias em que todos queremos ser amigos, solidários, felizes. Dois dias para os quais trabalhamos, por vezes, um mês inteiro. Em 48 horas tudo termina. Em 48 horas a vida volta a ter o seu ritmo.
Amanhã é Natal, mas os cheiros são diferentes. Não há azevinho em jarras espalhadas pela casa, nem um alguidar enorme de barro na cozinha onde o perú amacia. Amanhã é Natal e ainda há presentes por comprar, embrulhar, e cartões por escrever.
Amanhã é Natal e não me apetece.
Texto : Vera Lima

Chuva...

Inverno.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

(No) Rossio.

Pandemos



Dentífona apriuna a veste iguana
de que se escala auroma e tentavela.
Como superta e buritânea amela
se palquitonará transcêndia inana!
         
Que vúlcios defuratos, que inumana
sussúririca donstália penicela,
às trícotas relesta demiquela,
fissivirão bolíneos, ó primana!
         
Dentívolos palpículos, baissai!
lingâmicos dolins, refucarai!
Por mamivornas contumai a veste!
         
E, quando prolifarem as sangrárias,
lambiodonai tutílicos anárias,
tão placitantes como o pedipeste.
         
Jorge de Sena

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Palavra




A caminho da essência eu verifico a cadencia
Da matéria que se mostra mim livre de regência
Mato a dor de sentir demais, de amar demais, de pisar demais
Em convenções fundamentais
Encho a cabeça mas não há carga nos contentores
Digo olá aos meus amores, bem-vindas novas cores
Da utopia eu crio filosofia todo o dia quando a apatia
Senta no meu colo e arrelia
Eu faço a liturgia da verdadeira alegria
Musica nos meus ouvidos agua benta em benta pia
A caminho com prudência eu não esqueço a violência
Que levou alguns dos melhores da minha existência
Mata a saudade de curtir demais,de tirar demais, de pisar demais
Em convenções fundamentais
Eu uso o tacto pra trazer a agua da minha fonte
Hoje em dia nem sequer preciso atravessar a ponte
Tenho a palavra escrita a tinta negra na minha pele
Menina dos meus olhos, doce como o mel
Palavra puxa palavra põe-me disponível pra amar
Tudo aquilo que me seja sensível
E não são poucos aqueles que eu quero sem sequer os poder ver
Foi tanto o que me deram para nunca mais esquecer
Palavra de honra, guardo a palavra no meu bolso
Na parede, no conforto de uma cama de rede
Palavra de honra

Da Weasel

A Palavra - Tema Para Sassetti - Da Weasel feat. Bernardo Sassetti

Gaivota.


Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Alexandre O´Neill

              

THE ART AMÁLIA (Part 11 - Gaivota 1965)

Amália Hoje - A Gaivota

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Cartas de amor..


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
  
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
  
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
  
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículos.
  
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
  
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
  
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos
  

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Gota de água


 
Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
as lágrimas são minhas
mas o choro não é meu.

António Gedeão 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sem titulo.

Corrimão.

Crespúsculo




É quando um espelho, no quarto,se enfastia; 
Quando a noite se destaca da cortina; 
Quando a carne tem o travo da saliva, 
e a saliva sabe a carne dissolvida; 
Quando a força de vontade ressuscita; 
Quando o pé sobre o sapato se equilibra... E quando às sete da tarde 
morre o dia 
- que dentro de nossas almas se ilumina, 
com luz lívida, a palavra 
despedida. 

David Mourão Ferreira

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

No obscuro desejo



no obscuro desejo, 
no incerto silêncio, 
nos vagares repetidos, 
na súbita canção 

que nasce como a sombra 
do dia agonizante, 
quando empalidece 
o exterior das coisas, 

e quando não se sabe 
se por dentro adormecem 
ou vacilam, e quando 
se prefere não chegar 

a sabê-lo, a não ser, 
pressentindo-as, ainda 
um momento, na aresta 
indizível do lusco-fusco. 

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"



quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Pensamentos...


...Não, por aqui não acontece nada.
Apenas mais um dia que termina, depois de outro e de outro. Apenas mais um dia.
Acaricio a madeira da minha cadeira antiga, estofada por mãos hábeis de quem conheceu a moda de dias idos. Está quente neste canto da casa. Puxo a manta para as pernas. Aconchego-me e deixo-me viajar. Pelas páginas de um qualquer livro que não interessa se está no meu colo ou apenas na imaginação do meu olhar.

Vera Lima-Texto completo em Vekiki Projects 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Bilhete para o amigo ausente.


Lembrar teus carinhos induz 
a ter existido um pomar 
intangíveis laranjas de luz 
laranjas que apetece roubar. 

Teu luar de ontem na cintura 
é ainda o vestido que trago 
seda imaterial seda pura 
de criança afogada no lago. 

Os motores que entre nós aceleram 
os vazios comboios do sonho 
das mulheres que estão à espera 
são o único luto que ponho. 

Natália Correia, in "O Vinho e a Lira"
Fotografia tirada no botequim da Graça.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A casa dos beijos.


A Casa dos Beijos
  
Iam os dois pela rua, de mãos dadas. Dir-se-ia que não pisavam o chão. Dir-se-ia que deslizavam, que vogavam, que voavam. A felicidade estava-lhes cunhada nos rostos; e também nos gestos, nos sorrisos, no olhar. Iam de mãos dadas pela rua e iam muito felizes.
  
Ela tinha os cabelos longos e soltos, o tronco alto. Os seios puxados para a frente, as pernas esbeltas e livres, saias curtas. Ele era um pouco mais alto, um pouco apenas, camisa aberta, calças de ganga, uma pequena mala, daquelas malas dos antigos guarda-freios da Carris, a tiracolo. Isso: a mala estava a tiracolo, e eles iam muito felizes, os dois, de mãos dadas.
  
Nem sequer reparavam que muitas pessoas os observavam. Algumas pessoas com a conivência de um sorriso. Outras pessoas com um ressaibo de inveja, no olhar de esguelha. Pararam um pouco em frente à Pastelaria Suíça, no Rossio, ele disse qualquer coisa a ela, ela encolheu os ombros. Não deixavam de sorrir enquanto conversavam. Depois entraram e beberam café.
  
A esplanada da Suíça estava cheia de sol e de estrangeiros. Um vendedor de lotaria ofereceu jogo. Um rapaz sujo pediu algum dinheiro. Dois homens encontraram-se e abraçaram-se com efusão. Uma mulher apressada deu um encontrão num cego. Um cigano tentava vender relógios. Um polícia contemplava as coisas com evidente indiferença.
  
O rapaz e a rapariga decidiram, depois de tomar café, passear pelo Rossio. Estavam muito felizes. E é bom que se repita isto, porque as pessoas, habitualmente, andam para aí cheias de infelicidade, ao menos que haja alguém feliz, mesmo que seja uma ou duas pessoas.
  
Passeavam pelo Rossio e, de vez em quando, davam beijos, sempre sorrindo um para o outro, como se estivessem a sorrir para todo o mundo, e todo o mundo experimentava uma grande sensação de espanto e de júbilo. Paravam junto às montras do Rossio, olhavam, claro, mas não fixavam nada do que nas montras se expunha, só sabiam um do outro, só estavam ali juntos para apenas estar um com o outro, juntos e assim mesmo: de mãos dadas e aos beijos.
  
Foi numa dessas ocasiões. Beijavam-se tão felizes, tão um do outro, que essa felicidade molestou uma senhora obesa e flácida. A senhora obesa e flácida estacou, indignada, a fuzilá-los com as balas do ódio. E gritou:
  
— Não podiam fazer isso em casa?
  
A rapariga dos longos cabelos e seios puxados para a frente deixou o beijo a meio. O rapaz experimentou uma estranha sensação de pasmo. Olharam-se. E foi então que a rapariga respondeu, indicando tudo em derredor:
  
— Esta é a nossa casa!
  
Nesse instante trémulo, o mundo feliz, começou a aplaudir.
  
Baptista-Bastos, Lisboa contada pelos dedos (2001)