domingo, 13 de maio de 2012

Boa noite...

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade.
                                                 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver



Sophia de Mello Breyner Andresen




...

uma prancha sem porta sem escada
um grifo nas linhas da mão
uma Ibéria muito desgraçada
um rossio de solidão

Mario Cesaryny

domingo, 25 de março de 2012

Ficar à escuta...


Ficar
à escuta.


À escuta
do silêncio

Adília Lopes.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Namoro


Namoro
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...

Mandei-lhe uma carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o Maninjo tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO

E ela o canto do NÃO dobrou.

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbado, sujo, e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
" - Não viu...(ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

E para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário

Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.
Viriato da Cruz

  

domingo, 15 de janeiro de 2012

a escrita...

a escrita é a minha primeira morada de silêncio.

Al Berto

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Meteu o punhal...

Meteu o punhal dentro do bolso e saiu para a noite
 deserta.Deserta e escura.Seu desejo assassino era 
somente apunhalar as trevas e riscá-las de luz.

Vasco Miranda

domingo, 8 de janeiro de 2012

Quando partires...

Quando partires
se partires
terei saudades
e quando ficares 
se ficares
terei saudades.

Adília Lopes

sábado, 26 de novembro de 2011

A ferida...

A ferida por baixo da cicatriz
-quem cura?

Vasco gato

E por vezes....

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos.E por vezes

David Mourão Ferreira

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Portugal.

Portugal.
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir
como se tivesse oitocentos.

Jorge Sousa Braga

quinta-feira, 30 de junho de 2011

o poema...

o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela.

José Luís Peixoto.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Sentas-te...

Sentas-te num banco de jardim e não esperas.
Sento-me a teu lado, Lisboa.
Podíamos perguntar-nos onde está a noite quando é dia mas não o fazemos.
Sabemos que a noite está sentada mais adiante, noutro banco de jardim.
Conversamos com ela em pensamento.
José Luís Peixoto










Linhas paralelas

Tento não me perder e para não me perder tracei duas linhas paralelas no chão que piso.
Iludida pela imagem das duas linhas vou caminhando a direito.
Só posso caminhar pelos caminhos que as duas me indicam, pouco importando qual o destino a que me levam.
Faço-o de olhos fechados. Outras vezes, de olhos semicerrados.
E as linhas sempre lá. Do lado direito, do lado esquerdo. Paralelas.
Uma de fronte da outra.
Namoram-se? Veêm-se? Que sei eu da vida destas duas linhas que me guiam? Tracei-as eu ou foi alguém que as traçou para mim?
E a vida vai passando.
Sem que eu a tente prever, sem que tente adivinhar para onde vou, onde pararei este meu caminho conduzido por mãos invisíveis que me vão levando, de ponto em ponto na vida.
Vera Lima

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Retrato.

O teu corpo
As minhas mãos no teu corpo
O meu cheiro
A tua roupa inundada do meu cheiro
O teu sabor
Eu esquecida de te saborear
O meu sorriso
Tu esquecido de me fazer sorrir
Eu&Tu
Noutro tempo talvez
 Vera Lima

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Era uma vez um País...


Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra...

Ary dos Santos. 
Última fotografia sobre desenho da minha filha Carolina...
 

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Urbanização.

Senhores dos planos de urbanização
responsáveis pela paisagem
cuidado com o poeta na cidade.
Não há nem pode crescer na rua
árvore mais inútil que a palavra do poeta.

Ruy Belo

terça-feira, 5 de abril de 2011

Tenho uma coisa...


Tenho uma coisa que eu te posso dar
que é o vento a vir atrás do verde
e a dizer azul no teu cabelo.
Pedro Tamen

sexta-feira, 1 de abril de 2011



e na própria melancolia
sê feliz.

José Manuel Mendes
Tábua




quarta-feira, 30 de março de 2011

48 (Portugal, 2009). Susana de Sousa Dias.



Assisti ontem à ante-estreia deste fabuloso documentário de Susana Sousa Dias na Cinemateca Portuguesa.
Apesar de realizado em 2009 apenas este mês chegará ao circuito comercial . Completamente ignorado em Portugal, apenas com passagem no Doc Lisboa, tem ganho prémios por esse mundo fora e vais ser presença na próxima edição da PhotoEspanha, um dos maiores eventos mundiais de fotografia.
Com uma imagem e um som absolutamente magníficos e impressionantes, transporta-nos, com os seus emocionantes testemunhos, para a realidade absolutamente aterradora que foram as prisões políticas , nos tempos do fascismo, em Portugal.
Imperdivel, por todas as razões.Uma obra-prima.

segunda-feira, 21 de março de 2011

És tu a Primavera...

És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante.

Sophia de Mello Breyner Andersen

Os Pássaros nascem na ponta das Árvores.



As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
Deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
Quando o Outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
Mas deixo essa forma de dizer ao romancista
É complicada e não se da bem na poesia
Não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo

domingo, 20 de março de 2011

Urgência (Dia Mundial da Poesia).

Para bem da cidade, do País, da cultura é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência.

Daniel Filipe.
A invenção do Amor.

sábado, 19 de março de 2011

Desta janela...

Desta janela de ar e ansiedade
podemos ver compor-se a primavera
lentamente por cima das casas.

Gastão Cruz