O teu corpo
As minhas mãos no teu corpo
O meu cheiro
A tua roupa inundada do meu cheiro
O teu sabor
Eu esquecida de te saborear
O meu sorriso
Tu esquecido de me fazer sorrir
Eu&Tu
Noutro tempo talvez
Vera Lima
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quinta-feira, 12 de maio de 2011
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
(Des)Focamento.
Chamo-me um nome que alguém me pôs, décadas atrás, sem pensar no seu significado, sem pensar no peso que me transmitiria ao longo dos anos. Tenho décadas de vida sem saber muito bem quantas. É sempre assim. Sempre que tento lembrar-me de alguma coisa importante no momento a minha cabeça atraiçoa-me e não me leva lá. Depois, de repente, traz-me a recordação pedida quando eu já nem sei onde a colocar. Não reconheço esta casa onde estou. É branca e luminosa, chão de tábuas longas de madeira encerada. Há tanta luz que por vezes preciso de fechar os olhos para a conseguir atenuar. Não fico de olhos fechados por muito tempo. Tenho medo da morte. Que ela me esteja a vigiar, à espreita, à espera de me ver definitivamente esquecida de mim. Penso que quando isso acontecer, ela virá para me levar. De que serve alguém cuja memória não funciona, cujo cérebro não consegue relacionar dois dias, duas palavras, dois sentimentos? Não, não quero estar consciente quando esse estado de inconsciência se instalar. Que incongruente é o meu pensamento. Estava a falar da casa, não era? Há sempre música. Uma música de fundo que toca baixinho. Reconheço o som do piano e do violoncelo. Há alturas em que só o violoncelo se ouve. Nessas alturas páro. Toda eu estremeço, sustenho a respiração, concentro-me. Porque aquele som é o meu som, sou eu se eu fosse um instrumento. A grandiosidade, a sensualidade das formas dadas à madeira, a robustez das cordas, a sensibilidade do som. Indubitavelmente, eu sou[som] um violoncelo. A minha cabeça, sempre a minha cabeça. Sempre pensei muito e muito rápido. Era frequente conseguir fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo, correr daqui para ali sem nunca perder o norte, a compustura, o objectivo que tinha em mente. Subitamente, a minha ubiquidade foi enfraquecendo. Se fazia uma coisa não conseguia saltar rapidamente para outra, se me concentrava num pensamento, numa frase, numa imagem, não conseguia saltar para outra sem que a primeira continuasse a ocupar-me toda a capacidade reflexiva. Pode ser que esta casa seja minha. Consigo reconhecer a minha personalidade em determinados objectos, em determinadas cores, na luminosidade que sempre me atraíu e agora me fere os olhos, mas em mim repousa a sensação estranha de que vivo num lugar emprestado, onde me movimento com a certeza dos passos de proprietária, mas com a alma desfocada de hóspede em lugar estranho. E as vozes? De quem são as vozes que ressoam todo o dia na minha cabeça? Pedaços de mim também desfocados ou verdadeiras pessoas que aqui vivem comigo? A minha solidão é tão grande que é impossível que aqui viva alguém. Não, de certeza que as vozes que ouço são réstias da minha consciência desaparecida. Simulo uma normalidade que não sinto. Encaixo-me no que é socialmente aceite como normal e luto comigo mesma por não me sentir adaptada a essa normalidade.
A luz já deve ter diminuído, os meus olhos já se podem abrir.
Rodo o corpo. Levanto a cabeça da almofada e abro os olhos.
Mais uma vez. Um sonho. Um pesadelo. Uma alucinação.
Mais uma vez. Eu a provar a mim que a ubiquidade continua a existir. Eu sou várias e estou em diversos tempos simultaneamente
Mais uma vez. Eu vivo. Desfocada no lado ubíquo de mim.
A luz já deve ter diminuído, os meus olhos já se podem abrir.
Rodo o corpo. Levanto a cabeça da almofada e abro os olhos.
Mais uma vez. Um sonho. Um pesadelo. Uma alucinação.
Mais uma vez. Eu a provar a mim que a ubiquidade continua a existir. Eu sou várias e estou em diversos tempos simultaneamente
Mais uma vez. Eu vivo. Desfocada no lado ubíquo de mim.
Vera Lima-Vekiki Projects
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Debruçada sobre o rio,Lisboa.
Lisboa tem muitas casas, muitos prédios antigos, muitas fachadas de azulejos, muitos estendais de roupa aparafusados às paredes exteriores. Lisboa tem camisas a baloiçar ao vento de Inverno nesses estendais e tem homens e mulheres que assomam às janelas. Para ver quem passa. Para fumar um cigarro sem poluir o ambiente da casa onde vivem. Para saberem se hão-de sair de gabardine ou de sobretudo. Lisboa também tem homens que usam chapéu, uns à antiga, outros completamente fashion addicts. Lisboa tem sras que saem para ir à mercearia com a carteira das moedas na mão direita e o saco de rodinhas na esquerda. E sras que saem atarefadas, aprumadas e equilibradas em cima dos saltos altos, a caminho de carros modernos e rápidos que as levam a empregos diariamente absorventes. Lisboa tem gente, muita gente. Os que nela residem, os que nela trabalham, os que nela passeiam e namoram, e pedem esmola.
Mas Lisboa tem um tesouro que faz dela a cidade especial, mágica e romântica que é. Tem o rio que a enfeita, que a perfuma, que a ilumina. O rio da ponte sobre o Tejo, o rio que une margens de pessoas diferentes, o rio que deu origem aos cacilheiros e à música da saudade, o rio de onde partiram os que em tempos foram mais corajosos do que todos os outros, o rio que no Bugio se une ao mar. E a cidade ama o seu rio. Deleita-se a mirá-lo. Enfeita-se de locais para [o] poder namorar
Os miradouros
Vera Lima-Vekiki projects
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Pensamentos...
...Não, por aqui não acontece nada.
Apenas mais um dia que termina, depois de outro e de outro. Apenas mais um dia.
Acaricio a madeira da minha cadeira antiga, estofada por mãos hábeis de quem conheceu a moda de dias idos. Está quente neste canto da casa. Puxo a manta para as pernas. Aconchego-me e deixo-me viajar. Pelas páginas de um qualquer livro que não interessa se está no meu colo ou apenas na imaginação do meu olhar.
Vera Lima-Texto completo em Vekiki Projects
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Calçada Portuguesa.
imagino-me sentada num dos bancos da Avenida
talvez apenas olhando
talvez apenas observando
atentamente
quem por mim passa sem me olhar
pisando pedras de história
afastando com a biqueira dos sapatos
as folhas que vestem o chão
de Outono
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